A briga de família chegou ao banco antes de chegar ao advogado

Em 15 de agosto, cinco empresas da Marabraz pediram recuperação judicial, com valor da causa na ordem de R$ 140 milhões. A leitura fácil é juro alto e consumo retraído, e isso está na petição. O que também está lá é mais incômodo: em meio a disputas societárias e familiares,

A briga de família chegou ao banco antes de chegar ao advogado

Em 15 de agosto, cinco empresas da Marabraz protocolaram pedido de recuperação judicial, com valor da causa na ordem de R$ 140 milhões. A rede chegou a ter 135 lojas em São Paulo. A leitura fácil é a de sempre, juro alto, consumo retraído, inadimplência, e está tudo na petição.

O que também está lá interessa mais a você. O documento atribui a crise, em parte, a disputas societárias e familiares, e descreve o mecanismo. A família captava recursos no mercado financeiro para expansão e capital de giro, dando ativos em garantia, especialmente imobiliários. Em meio às disputas, os administradores deixaram de exercer controle sobre as sociedades titulares desse patrimônio. Sem as garantias, ficaram comprometidas a renovação das linhas existentes, a contratação de novas operações e a manutenção das condições de crédito.

A sequência foi escrita pela própria empresa, em juízo: briga de família, perda de controle societário, perda de garantia, crédito travado. Não foi o mercado que fechou a torneira, foi a estrutura.

É por isso que conflito entre sócios não é assunto emocional. É variável de crédito. O banco não precisa conhecer a sua família para precificar o risco dela. Basta ler a procuração confusa, o contrato social parado há trinta anos, a assinatura que depende de dois sócios que não se falam e a garantia imobilizada numa holding cujo controle ninguém mais exerce.

A versão pequena disso é banal. Dois irmãos herdam a empresa do pai, um quer reinvestir para crescer, o outro quer retirar mais, cinquenta por cento para cada um e nenhuma regra de desempate. O resultado raramente é briga aberta. É paralisia, e paralisia aparece no custo do dinheiro antes de aparecer no balanço. No mercado de capitais a cobrança é mais rápida. Em março de 2024, a Vivara anunciou numa sexta-feira que o fundador e maior acionista voltaria ao comando, substituindo o executivo em quem o mercado havia aprendido a confiar. Não houve fraude nem prejuízo, houve ruído de governança. Em duas sessões a ação recuou 17,58% e o valor de mercado caiu de R$ 7,25 bilhões para R$ 5,98 bilhões, perda de R$ 1,27 bilhão. Dias depois, o fundador deixou a cadeira de presidente executivo.

A escala do problema no Brasil é conhecida. Pelo menos 90% das organizações do país são classificadas como familiares, segundo dados do IBGE e do Sebrae. E pesquisa do IBGC em parceria com a PwC mostra que apenas 27,6% das empresas familiares pesquisadas têm plano de sucessão para cargos-chave. Mesmo entre as de faturamento acima de R$ 400 milhões, o índice não passa de 40%. Não falta orçamento nem acesso a assessoria. Falta decisão. A mesma pesquisa registra o dado mais desconfortável: a presença do fundador inibe as práticas de governança. Quanto mais forte o dono, menos regra escrita a empresa tem.


Talvez a sua família seja diferente e vocês sempre tenham se entendido. Costuma ser verdade, até o primeiro inventário, o primeiro divórcio ou o primeiro dezembro apertado na hora de distribuir lucro.

Acordo de sócios, portanto, não é sinal de desconfiança. É o instrumento que mantém dentro da empresa as disputas que não pertencem à mesa de domingo, e ele precisa responder, no papel, a quatro situações que ninguém escolhe: morte, divórcio, saída e empate. Quem compra a parte de quem, por qual critério de preço, em que prazo, e quem desempata quando ninguém cede. Vale separar também os papéis do dono, porque se confundem sozinhos: quem é sócio recebe distribuição de lucro, quem administra recebe pró-labore de mercado, quem opera tem função e meta. E a entrada de um familiar na operação segue o mesmo critério de qualquer contratação. Enquanto todos se gostam, isso é uma conversa. Depois da briga, é um processo. E, como a Marabraz registrou em juízo, o banco chega antes do advogado.

Por Anderson Dantas, Advogado do Setor Societário e Sócio Fundador da Braga e Dantas.

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