Você só é sócio quando o contrato social é atualizado? O STJ diz que não

Uma sócia levou quase nove anos para ver sua situação regularizada nos documentos de uma empresa. Ainda assim, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu seu direito de cobrar explicações dos administradores desde o momento em que passou a ser dona das quotas. Entenda o que o caso revela sobre os

Você só é sócio quando o contrato social é atualizado? O STJ diz que não

Em 2009, durante uma separação, uma mulher passou a ser dona de 25% de uma empresa até então administrada pelo ex-marido e por outro sócio. No próprio acordo da separação, o ex-marido prometeu atualizar os documentos da empresa ainda naquele ano.

A promessa não foi cumprida. Os documentos só foram atualizados quase nove anos depois. Cansada da demora, a sócia entrou na Justiça pedindo que os administradores explicassem como o negócio vinha sendo gerido desde 2009. Em um primeiro momento, a
Justiça entendeu que ela só poderia cobrar essas explicações a partir da data em que o documentos foram atualizados.

O STJ discordou. Em junho de 2026, os ministros decidiram, por unanimidade, que os administradores devem explicações sobre todo o período reclamado, e não apenas a partir da atualização formal dos documentos, respeitado o limite de dez anos que a lei permite cobrar do passado. Para o relator do caso, o fato de a sócia já ser dona das quotas desde 2009 já bastava para provar que ela tinha o direito de cobrar explicações desde aquela data.

A decisão se baseia em uma ideia simples: quem administra uma empresa tem o dever de prestar contas aos demais sócios, e esse dever não depende da papelada estar em dia. Para o STJ, uma sociedade pode existir na prática antes mesmo de qualquer registro, pela forma como os sócios agem e dividem os resultados. O registro formal serve, principalmente, para dar publicidade perante bancos, clientes e outros terceiros, não para criar o direito entre os próprios sócios.

Esse entendimento vale para qualquer empresa em que algum sócio ainda não teve sua situação regularizada, seja por herança, separação, sucessão familiar ou acordos informais entre fundadores. É comum achar que direitos e deveres só existem depois que tudo está assinado em cartório. O STJ deixou claro que isso não é verdade quando há outras formas de comprovar que a pessoa já era sócia.

Na prática, isso significa que administradores não podem tratar a papelada atrasada como uma proteção. O dever de ser transparente com um sócio nasce junto com a sociedade, mesmo que ela ainda não esteja formalizada. Empresas com sucessões em andamento ou sócios ainda não regularizados devem resolver essa pendência o quanto antes, antes que ela vire um problema jurídico.

Por Anderson Dantas, Advogado do Setor Societário e Sócio Fundador da Braga e Dantas.

Compartilhe:

Mais notícias

Empresa com dívida tributária pode distribuir lucro? O STF impôs critérios à multa

Durante décadas, uma regra de 1964 autorizou o fisco a multar em 50% a empresa que distribuísse lucros aos sócios enquanto mantivesse dívida tributária com a União. Ao concluir o julgamento da ADI 5.161, em 30 de setembro de 2026, o Supremo Tribunal Federal manteve a multa, mas fixou critérios objetivos para sua aplicação: ela só incide quando o débito está inscrito em dívida ativa, é exigível, não está garantido e a empresa não reservou bens suficientes para quitá-lo. Na prática, a companhia que separa recursos suficientes para pagar a dívida pode distribuir resultados sem risco de penalidade. A decisão redesenha o planejamento de dividendos de qualquer empresa com passivo fiscal em aberto.

Leia mais »

Recorde de 6.341 empresas em recuperação judicial: o que separa quem se reerguede quem apenas adia o colapso

O Brasil fechou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior número já registrado. Casas Bahia e Habib’s engrossaram a lista em agosto, enquanto microempresas e agronegócio puxam a curva. A newsletter mostra por que o intervalo entre o início da crise e o pedido de recuperação costuma decidir o destino da empresa.

Leia mais »

STJ admite penhora de milhas e reforça alcance da execução sobre patrimônio digital

A 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, por unanimidade, que milhas aéreas e pontos de programas de fidelidade podem ser penhorados para pagamento de dívidas, desde que possuam valor econômico mensurável. No julgamento do REsp 2.198.485/DF, o STJ reconheceu esses créditos como bens digitais integrantes do patrimônio do devedor, sujeitos às regras do Código de Processo Civil. A Corte destacou que eventuais cláusulas de intransferibilidade não impedem a penhora, podendo o saldo ser bloqueado ou recomprado pela emissora. Para garantir a eficácia, o prazo de validade dos pontos fica suspenso durante o bloqueio. Contudo, o credor não pode fazer pedidos genéricos: é obrigatório indicar os programas específicos a serem oficiados. Esse precedente inovador amplia as estratégias de recuperação de crédito, permitindo alcançar ativos digitais valiosos, exigindo, porém, uma investigação patrimonial mais direcionada e pedidos judiciais bem estruturados.

Leia mais »

Mais postagens

4 de maio de 2026

Planejamento tributário abusivo em reestruturação societária Lucro Real/Lucro Presumido — responsabilização pessoal de sócios

5 de maio de 2026

STJ decide: recibo de compra e venda pode ser justo título para usucapião ordinária

5 de maio de 2026

Receita Federal inicia notificações de devedores contumazes

5 de maio de 2026

STJ autoriza uso do Serp-Jud para localizar bens de devedores em execuções civis

18 de maio de 2026

Vesting: o mecanismo que protege sua empresa de sócios que não entregam o que prometeram

18 de maio de 2026

TCU amplia uso de Prejuízo Fiscal na Transação Tributária e abre caminho para regularização de dívidas com segurança jurídica

18 de maio de 2026

O Contrato Social fala com o mercado. O Acordo de Sócios fala entre vocês — e é aí que nascem os conflitos.

18 de maio de 2026

Justiça determina que PGFN reavalie capacidade de pagamento após elevação abrupta de rating

1 de junho de 2026

STJ afeta Tema 1.427: a tributação de clínicas odontológicas pelo lucro presumido entra na pauta dos recursos repetitivos

1 de junho de 2026

Justiça Federal suspende retenção de 10% sobre dividendos distribuídos por empresas do Simples Nacional

1 de junho de 2026

A ferramenta que a Raízen está usando para salvar o futuro da empresa, e que também pode salvar o futura do seu negócio!

1 de junho de 2026

STJ reforça medidas para evitar que devedores desaparecidos paralisem a cobrança

Inscreva-se em nossa Newsletter e fique por dentro dos assuntos mais relevantes do Direito.

ESTAMOS PRONTOS PARA OUVIR VOCÊ

Conte com a nossa equipe para conduzir sua demanda com excelência, sigilo e responsabilidade.

Entre em contato pelos nossos canais oficiais que teremos a satisfação em atendê-lo com agilidade e atenção personalizada.

Natal/RN
Rua Militão Chaves | 1822 | Candelária | 59064-440

Central de Preferência